terça-feira, 26 de julho de 2011

Desenrola (2010)



Não pude deixar de perceber como o nosso cinema anda evoluindo – não apenas no número de produções anuais, como também na qualidade das mesmas. Para um país que dá prioridade às novelas e séries televisivas, isso é um grande presente para os cinéfilos que não perdem a chance de ver alguma obra filmada em terras tupiniquins no cinema. Mas como a maior parte da população comenta, nossos roteiristas ainda precisam se desprender dos velhos e costumeiros temas que nossos filmes retratam, principalmente as comédias e suas situações constrangedoras sobre a classe média nacional.

Desenrola é a comédia nacional que eu sempre quis ver. Não dá para resumi-lo apenas em piadas sobre sexo (como as já citadas comédias sobre a classe média à la “Se Eu Fosse Você”), tampouco o humor totalmente ingênuo e propriamente para crianças bem pequenas como os filmes de Xuxa Meneghel e Renato Aragão.

Não queria conferir este produto esperando um humor refinado e inteligente, pois isto aqui se trata claramente de um filme que se limita em agradar ao seu público-alvo (os adolescentes) e, conseqüentemente, algumas pessoas mais maduras que queiram ver algo leve e descontraído. Visto sob esses parâmetros, é um grande filme!

Um elenco teen nacional como há muito tempo eu não via. A protagonista fofíssima conquista o público logo no início e é impossível não torcer para que ela seja feliz no final. Olívia Torres, surpreendentemente recém-saída da telenovela Malhação, se sente à vontade em sua personagem, assim como Lucas Salles, um pouco mais limitado, porém bem, e Daniel Passi – esse o último o mais fraquinho dos três citados, mas não faz feio na tela.

Um dos grandes feitos do roteiro é fazer piada com situações comuns e que acontecem o tempo todo, que passam despercebidas ou são vistas com maus olhos por nós, mas quando adaptado paras telas fica muito divertido, como ouvir música com fone de ouvido no ônibus e, distraidamente, cantar em um tom absurdamente alto, incomodando os outros passageiros.

É comumente interessante ver também como o filme aborda de maneira otimista e fofa alguns temas corriqueiros da adolescência, tais como a virgindade, a paixão não-correspondida, o apoio dos amigos nos momentos de desilusão (e o velho caso de se apaixonar pela melhor amiga), a coragem necessária para mostrar aos pais que já pode caminhar sozinho, fofocas e, é claro, a gravidez na adolescência – o assunto que não podia faltar. É bom conter tantos temas recorrentes dessa fase da vida, pois é possível para seu público se identificar com o personagem e ver que tudo o que geralmente ocorre nessa idade é perfeitamente normal. Tudo isso, embora de maneira superficial, é mostrado com agilidade e ainda deixa espaço de sobra para o romantismo no desfecho.

O elenco de apoio adulto também não está lá só para enfeitar, embora apareçam bem pouco e pudessem ter sido mais aproveitados, não só os atores, como também seus personagens e suas relações (como o marido e a mulher divorciados que descobrem ainda sentir uma paixão secreta um pelo outro). Pedro Bial, mesmo aparecendo em uma cena, mostra estar interpretando si mesmo, o que é bom para alguém que se acha tão intelectual.

A trilha sonora anos 80 compõe ainda um bom clima de ‘filme adolescente cultural’ (que não contém na trilha apenas músicas de grande sucesso atual para fazer mais marketing) e transforma Priscila numa personagem ainda mais interessante e completamente característica – a garota que vive o presente com muita felicidade, mas não deixa de apreciar a cultura que as décadas passadas pode proporcionar.
 
E, por fim, devemos citar a eficiente Rosane Svartman, que aqui nada faz mais do que um trabalho bem feito e conduz o filme de modo coerente para o público a quem está destinado.

Este filme não é perfeito. Tem passagens mal-desenvolvidas? Muito. Seqüências descartáveis? Obviamente. Piadas que não funcionam? Sem dúvida. Mas, no mais, é um filme cujos pontos positivos do roteiro sobressaem aos seus furos. Não vai agradar a um público mais maduro e exigente, pois isto aqui não passa de apenas mais um filme para os jovens. Mas tentemos enxergar através disto: o universo adolescente é complexo demais, tanto para se entender quanto para sintetizar em um filme. 

Nota: 7.0
Victor Tanaka
 

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