segunda-feira, 12 de julho de 2010

Cinderela Baiana



Uma imagem que já mostra o alto nível do filme

O talento de Carla Perez mostrado de forma jamais vista no cinema.”

 Sempre detestei o cinema brasileiro, por tais filmes sempre se tratarem de favelas, crimes, bandidos, sexo, prostituição. Além disso, ainda havia filmes da Xuxa Meneghel e do Didi (Renato Aragão), que completavam nosso circuito. Mas de uns dias para cá, me comecei a me interessar quando analisei meus filmes nacionais preferidos, como Central do Brasil, Saneamento Básico – O Filme, Apenas o Fim ou Ilha das Flores. Ontem decidi ver Cinderela Baiana, uma comédia involuntária com Carla Perez e dirigida por Conrado Sanchez (o renomado diretor de ‘Como Afogar um Ganso’) e, sinceramente, achei incrível. Até hoje não acredito que essa obra foi feita.

Em primeiro lugar, vale ressaltar que, até hoje, nunca vi nada igual. O filme em questão foi o mais original e corajoso até hoje. Original por fazer questão de apresentar um roteiro cheio de excentricidades e elementos chamativos; corajoso por ter coragem de mostrar ao público e ser chamado de “filme”. Sinceramente, todo o eufemismo até agora usado é apenas para dizer que o filme foi um completo desastre.

A encantadora história mostra Carla Perez encarnando a protagonista Carlinha, que desde criança mostra seus dotes como dançarina. Após a morte de sua mãe e de um velório que apareceu do nada, ela e seu pai saem no meio da cerimônia (e deixam o corpo da mulher para os outros enterrarem) e se mudam para Salvador, onde seu pai arruma um emprego no escritório de Almeida, que curiosamente tem um quadro do Papa em sua parede. Carlinha conhece dois malandros que tentam fazê-la roubar os acarajés de uma mulher que os distribui e diz que vendeu e conhece Pierre, um maluco que acha que sabe falar inglês e francês e a transforma numa dançarina, mas a mente sanguinária e insana do homem quer muito mais que isso.

A lista das barbaridades já começa na pré-produção, durante a escolha do elenco. Uma pessoa que coloca Carla Perez como personagem principal de um filme não merece ser levado a sério. E para ser seu pai romântico, o diretor escalou Alexandre Pires, o cantor de pagode, que aparece em três cenas.

Durante a exibição do longa, o roteiro se mostra ágil em criar situações bizarras e divertido em não querer ser divertido, mas Carla Perez falando das propagandas demagógicas e, logo depois, descer dos céus uma música cuja letra diz “Pau que nasce torto nunca se endireita” consegue fazer qualquer um rir.

Além disso, o filme recebe um mérito por ser extremamente crítico, denunciando temas fortes como a pedofilia, a corrupção, a macumba e a propaganda enganosa, como o estabelecimento citado como “a melhor academia de dança da cidade”, quando não é necessariamente isso o mostrado. Outro grande mérito do filme é citar frases marcantes, que não passam despercebidas e acabam se tornando clássicos brasileiros inesquecíveis, como a vendedora de acarajés dizendo “Essa baianinha parece uma Cinderela... Será um anjo que venho iluminar minha vida?”, ou o personagem de Alexandre Pires dizendo “Diga ao Pierre que não devo satisfações a ele”, dando sequência de uma das maiores e icônicas cenas de luta da história do cinema.

Não podemos, é claro, nos esquecer dos deliciosos climas de alegria contagiante proporcionados pela magnífica trilha sonora, incluindo a música final (do “pau que nasce torto”) depois de um triste discurso da Carla Perez sobre as crianças pobres.

São muitas as pérolas que este filme deliciosamente nos proporciona. São tantas passagens elaboradas de forma inteligente e criativa, que chega a emocionar qualquer um. Conrado Sanchez conduz a história com muita animação e sinceridade, mostrando seu talento como diretor de uma divertida comédia de humor involuntário.

Mas o destaque principal mesmo é a estrela da película, Carla Perez, que brilha como nunca ao dançar como um anjo que vem iluminar a vida das vendedoras de acarajés. Seu apelido no filme como Cinderela foi muito bem escolhida e não podia ter sido melhor pensado. Faz imenso sentido, e na hora nós já percebemos a genial sacada do diretor em querer montar um conto de fadas semimoderno.

Então, se você quer rir, não perca a chance de pegar esse constrangedor “filme” para toda a família num sábado à noite. A criatividade e a genialidade aqui correm soltar, formando um dos filmes mais interessantes e curiosos já produzidos até hoje, que tem tudo para se tornar um clássico do romance e uma das histórias mais bonitas e açucaradas do cinema.

E quem mais poderia ter produzido um filme desse nível?
Só o Brasil mesmo!

E para dar vontade...

2 comentários:

Luis Otavio M. Guimarães disse...

OBRA-PRIMA com direito a CAPS LOCK!!!

Douglas Olive disse...

VICTOR, SEU CARA DE PAU, RINDO MUITO, KK